Teto de Vidro

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por Esqueleto Coletivo

A matéria: o vidro

Qual a mínima ação possível para quebrar a linearidade da vida contemporânea?
Como, pelo menos deslocar, mesmo que por alguns instantes, a continuidade temporal da nossa existência?

A imagem que surgiu foi a do vidro e sua quebra. Vidro, elemento ambíguo, que todos veem como sólido, mas é líquido. Sua transparência nos lembra o tempo, que existe mas não é possível enxergá-lo. O Impalpável totalmente palpável, o abstrato concreto.

O vidro quando forçado ao seu limite traz a ruptura sem volta. O Integral é abalado, desengatilhando um processo sem retorno à situação de harmonia inicial, ao equilíbrio integral.

Quando o vidro se quebra, sua transparência se extingue, sua organização se transforma, o que era UNO agora são diversos, e sua fragilidade se torna cortante.

Quando ouvimos um vidro quebrando, a imagem que nos vem, mesmo que inconscientemente, é de algo que foi e não será mais. Será substituído? Será consertado? Mas nunca mais será o mesmo.

É com essa prerrogativa que buscamos criar situações onde o agente disparador de uma série de questões, e mesmo sensações, é a quebra do vidro e a evocação de sua materialidade. Difícil ficar impassível ao ouvir, que seja, um copo quebrando. Sempre acabamos virando a cabeça em direção ao som da quebra. Desviamos nossa atenção para o que não tem volta.

O susto com a transformação do compreensível ao não compreensível. Do copo aos cacos. Do preservável ao descartável. Nossa necessidade de entender e organizar as coisas fica abalada, temos que começar de novo, e o ponto de partida agora é outro.

A investigação

O projeto Teto de Vidro parte da ideia de uma intervenção mínima a ser realizada em espaços públicos. Por um processo de “quebrar vidros” sem quebrá-los, uma interferência sonora, o acréscimo de uma camada de ruídos, poderia despertar o ouvinte incidental e romper a prevista linearidade cotidiana.

O trabalho propõe um processo em que se investiga a potência da mínima ação e o poder do simulacro; quer discutir imaginário, percepção e reação, mas também a indiferença. Como uma interferência sonora pode manipular imagens e imaginários? Quais outras camadas no Real podem ser criadas pela emulação do sabido? Qual o mínimo de imagem necessária a uma intervenção? Como explorar o limite dessa mínima ação sendo posta a produzir uma quebra na continuidade, uma reestruturação da percepção, uma ruptura na superfície? É possível romper o estado “modo automático” em que as pessoas estão imersas? É mensurável o impacto de uma ação invisível, de uma interferência sonora entre tantos ruídos da cidade? Como isso atravessa o sujeito?

O processo: experimentações e reflexões

Teto de Vidro nasceu como um suposto ataque ao prédio da prefeitura, no Viaduto do Chá, centro de São Paulo: um audiovisual de vidros quebrando, ou video mapping, projetado na fachada do edifício, com a intenção de apontar a fragilidade e as contradições daquela representação de poder.

A ideia foi descartada – também por questões logísticas e de estrutura -, e desenvolvidas outras decorrentes desta. A que mais interessou o grupo, por ampliar o questionamento da proposta original, foi um projeto de intervenções em áudio, com gravações de um suposto teto de vidro sendo despedaçado. Essas gravações, reproduzidas por som mecânico, poderiam ocorrer em diversas partes da cidade, e em algumas paisagens de vidro, lugares simbólicos das estruturas de poder: enormes e poderosos, e ao mesmo tempo frágeis e suscetíveis.

Em São Paulo e em Berlim, foram realizadas ações em diferentes contextos e que produziram diferentes significados, sinalizando compreensões e impulsos diversos entre os integrantes do grupo em relação ao trabalho. Desde então, Teto de Vidro vem se caracterizando como um projeto que privilegia o processo, de muitas e variadas camadas, construído com investigações, ações, descobertas empíricas que geram novas reflexões, e que sugerem novas linhas de ação e de pensamento. Não é um trabalho que produz uma síntese – um objeto ou símbolo -, ou um trabalho acabado, mas uma sucessão de acontecimentos que preparam para uma nova etapa.

Em São Paulo, a “ação mínima”, como nos acostumamos a chamar essas ações, obteve resultados mínimos em relação ao público. Houveram poucas reações aparentes, houveram poucas evidências de havermos atingido a quebra na realidade que esperávamos.  Em Berlim, a ação parece ter provocado maior estranhamento, mas talvez mais pela presença da performer vestida de vermelho com seu carrinho sonoro, do que por um estremecimento, um choque de fato.

O grupo passou a questionar a eficácia das ações baseadas unicamente no som mecânico de vidros se quebrando e outras frentes foram abertas. Um dos integrantes passou a experimentar uma brincadeira de infância em que com um copo de vidro, um papel celofane e uma chave, consegue produzir um som de um copo se quebrando. Em pequena escala, em ambientes fechados, a ação sonora “low-tech” produziu mais efeitos no que diz respeito à captura da atenção do público, do que as ações com caixas de som.

Outra integrante do grupo passou a pesquisar sons produzidos com vidro, que evocam sua materialidade e características específicas, desencadeares de paisagens sonoras. Vidros que se quebram, mas também sons obtidos pelo choque com outros materiais, sons de dedos que acariciam bordas de vidros, que se transformam em espessuras e profundidades, são combinados em trilhas sonoras, como preparação para uma futura apresentação ao vivo.

Contando com diversos colaboradores, o grupo trabalha também na tradução visual do processo.

As ações

Pinheiros, São Paulo
Por Rodrigo Barbosa

Nosso pensamento inicial era o de que, 
se assustássemos as pessoas
e para que assustássemos as pessoas
com um som de vidro quebrando, 
algo sem volta,
substituível mas irreparável,
elas, mesmo que por alguns instantes, 
sairiam da linha
quebrariam o pensamento
substituível mas irreparável,

colocaríamos uma caixa de som 
escondida para que ninguém percebesse 
de repente…
Pá
a quebra da linearidade da vida aconteceria?

fizemos,
primeiro na rua dos pinheiros
hora do almoço
eu e o edu 
a mari não pode a lulu na gringa e o davi em diadema
nossa amiga verônica na câmera
eu e o edu de vermelho
caixa de som na calçada
a espera do momento ideal…
ninguém vendo…
aperta o play (som alto de vidro quebrando)
Pá
caralho… ninguém tá nem aí,
sacanagem,
mal olharam.

a questão que surgiu foi a seguinte
talvez o som alto desconfigure
a ideia de um vidro real se quebrando.
de um perigo real

testa assim, testa assado…

até que me lembrei 
duma brincadeira de moleque
com um copo de vidro vazio
uma chave de segredo
e um pedaço de celofane

podemos simular a quebra real do vidro

e lá vamos nós…
no restaurante
hora do almoço
pedimos um copo extra para mesa
copo na mão
chave na outra
colocamos o celofane fechando a boca do copo
tensão 
na mesa e no celofane
ninguém olhando
chave tensionando o celofane tensionado
até a ruptura
Pá
do celofane 
também substituível mas irreparável,

muitas cabeças olhando pros lados
procurando entender o que
ou quem fez a merda

claro que a cabeça mais rápida
é a da garçonete
que olha certinho para nossa mesa
eu mostro pra ela a brincadeira
balançando o copo com uma chave dentro
alivio para garçonete
desculpa garçonete

funcionou mais do que na rua
com caixa de som,
pensando na idéia da mínima ação,
sai caixa, sai mp3 player, sai cabos, sai energia elétrica
se menos é mais
fomos menos

Berlim, Alemanha
Por Luciana Costa

No dia 1º de maio de 1886, em Chicago, foi iniciado um protesto pela redução da jornada de trabalho assalariado, para 8 horas diárias. Este fato foi apenas o pontapé inicial para uma série de protestos pelo mundo. Rapidamente o 1° de Maio foi instituído como o Dia internacional do Trabalho, e como feriado nacional é comemorado tanto no Brasil como na Alemanha.

Em Berlim, o 1° de Maio é conhecido pelas inúmeras marchas, protestos e comemorações. Trabalhadores, punks, anarquistas, simpatizantes de esquerda e de direita, assim como festeiros povoam a rua com suas políticas. Dez mil pessoas, uniformemente vestidas de preto, marcham em protesto anti-capitalista, cerca de 30.000 festejam e 7.000 soldados acompanham as demonstrações e festividades durante todo o dia. Alguns jovens se arriscam com sua agressividade, demonstrando sua insatisfação e revolta quebrando portas e janelas de vidro de estabelecimentos comerciais, principalmente bancos econômicos.

Este gesto de quebrar o vidro de uma instituição econômica e a imagem produzida por este ato apresenta uma conexão direta com a proposta Teto de Vidro do Esqueleto Coletivo. Não apenas por sua estética, mas também por seu conceito, sua ética. Mais sutis os Esqueletos também propõem uma quebra. Uma quebra auditiva, uma quebra perceptiva e que também atua no âmbito conceitual. Um quebrar sem quebrar. Um ser violento sem contato físico, um embate corporal sim, mas auditivo, visual.

Para a ação Teto de Vidro nossa cor é o vermelho. Cor sanguínea, cor de ruptura, cor de revolução. Vermelho de socialismo, vermelho de menstruação. Vestida inteiramente de vermelho e puxando um carrinho de som igualmente vermelho, a performer caminha pela Potsdamer Platz em pleno coração comercial e turístico de Berlim. Lá o primeiro semáforo foi instalado. Área que foi totalmente devastada durante a Segunda Guerra Mundial, onde após a queda do muro de Berlim foi construído o maior e mais luxuoso complexo 3 em 1 (trabalho, moradia e lazer) da cidade, o Sony Center. O complexo faz parte de um empreendimento de ponta, uma verdadeira bolha social. Uma bolha translúcida. Todo construído em acabamento de vidro, paredes e tetos dão a imponência de um templo. Um templo do capitalismo.

Para este 1° de Maio de 2012, uma paisagem como essa é um campo frutífero à ação Teto de Vidro em Berlim. Neste contexto transita a performer, e ao contrário das expectativas e receios de embate com a polícia, o passeio interventivo é tranqüilo. A presença da mulher e seu carrinho sonoro em vermelho cria estranhamento girando pescoços em sua direção. A ruptura se dá na presença vermelha de seu corpo na paisagem uniformemente acinzentada. Seu som não tem a potência de romper as paredes de vidro da construção, mas rompe o cotidiano monótono em sua previsibilidade.

Enquanto em outros lugares da cidade centenas de policiais, viaturas e manifestantes se enfileiram, onde muitas mil pessoas festejam e dançam e onde algumas vidraças são quebradas, a ação causa curiosidade e estranhamento na região que parece a mais indiferente para este dia tão comemorado. Um local onde este dia parece como outro qualquer, onde feriado não existe. Aqui o trabalho á uma obrigação que, se não cumprida, geraria a ruína deste Teto de Vidro.

Porque a população crítica a este sistema econômico não marcha por aqui? Porque marcham pela área boêmia da cidade onde, em comparação com esse templo, a vida pulula em riqueza social? Marchar neste local não seria mais potente, evidenciando o conflito, radicalizando o discurso na prática? Em um país onde tudo está tão organizado e controlado, um protesto deste tipo pareceria um ataque forte demais à cidade. Não. A cidade não está sendo atacada, nem rupturas maiores que sutilezas estão sendo provocadas, sejam nos parques de Berlim, nos palanques da esquerda ou nos templos comerciais. E assim todos seguem com seus Tetos de Vidro intactos.

O grupo e os grupos

O Esqueleto Coletivo sempre foi um grupo que procurou transitar as fronteiras dentro do conceito da intervenção urbana, que por si só abarca diversas tendências. Desde 2003 o grupo trabalhou com meios digitais e analógicos, apoiando-se nas habilidades de seus integrantes e na vontade de explorar essas possibilidades.

Foi assim quando resolveu investigar os bastidores da indústria publicitária e lançar a campanha fictícia – e o próprio produto – “Conscience”, um improvável limpador de consciência, parodiando campanhas publicitárias ecológicas. Entrevistas com publicitários e artistas levou o grupo a elaborar uma estratégia de marketing e peças publicitárias que apenas soam absurdas pela ideia do produto, e o mimetismo provocado pelo trabalho trouxe à tona a ironia desejada.

Igualmente a ação coletiva “Atitude Suspeita ” levou o grupo a pesquisar a presença das câmeras de vigilância na cidade, criar mapas, diagramas e todo um sistema para questionar o porquê do sistema de vigilância imposto ao cidadão de São Paulo. Entre as respostas mais elucidativas, o grupo descobriu que as câmeras não existiam tanto para “proteger” os cidadãos quanto para monitorar o comércio de ambulantes no centro da cidade, e outros indesejados do poder.

É dentro de questões paradoxais como estas que reside a verdadeira importância da atuação dos coletivos na sociedade. E é muito difícil conseguir alguma mudança efetiva na esfera do real, por motivos bastante óbvios: coletivos quase nunca têm condições – seja de tempo, seja de estrutura ou recursos financeiros – de manter sua atividade, batendo-se contra um estado de coisas da vida cotidiana que opõe enormes dificuldades.

Nem mesmo o escândalo provoca mudanças. Quando um integrante do grupo invadiu a prefeitura carregando uma faixa questionando a frase proferida pelo prefeito (“Eles não representam o povo”) sobre as manifestações pelo direito à moradia na cidade, a pergunta impressa “Quem Representa o Povo?” ficou sem resposta.

A dificuldade de abrir brechas na estrutura oficial e a impossibilidade de construir um mínimo canal de diálogo pode tornar o processo bastante frustrante. Mais profícuo sem dúvida é o diálogo com outras esferas da sociedade, a começar com outros coletivos e o público direto. Desta forma, o trabalho de formiga de muitos coletivos tem seu papel de desvelador, conscientizador ou questionador da realidade, difícil é alcançar potência nas mudanças macro-políticas. Mas qual o poder do cidadão nestas mudanças?

Em uma cidade onde os direitos básicos do cidadão são negligenciados e a cultura é tratada como espetáculo de curta duração, aos agentes de uma cultura isenta de interesses meramente comerciais sobra uma atuação subterrânea e de certa forma subversiva. O Esqueleto por sua postura crítica, busca atuar nesse limite, neste terreno onde ainda não existem ouvidos ou tempo para a informação alternativa à oficial.

Esqueleto Coletivo
David Santos
Eduardo Verderame
Luciana Costa
Mariana Cavalcante
Rodrigo Barbosa

Parceiros
Antonio Brasiliano – fotografias em estúdio
Veronica Manevy – fotografias e vídeo ação São Paulo
ZoomB – base ação São Paulo
Arianne Vitale – vídeo ação Berlim
Thiago Bortolozo – fotografias ação Berlim

Agradecimento
Divinal Vidros

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